Microbioma vaginal e cancro do colo do útero

"If an alien visited Earth, they would take some note of humans, but probably spend most of their time trying to understand the dominant form of life on our planet - microorganisms like bacteria and viruses." Nathan Wolfe


Nos últimos anos, termos como microbioma, microbiota, virioma ou metagenoma tornaram-se uma parte integrante e obrigatória do nosso léxico.

Rapidamente, estamos a transitar de um conhecimento alicerçado na microscopia e nos exames culturais, para um cujas fundações são a biologia molecular. Dogmas de décadas começam a esfarelar-se e, nesta nova época, vivemos mais dúvidas do que certezas.

Hoje é indubitável de que o vírus do papiloma humano é condição sine qua non para o desenvolvimento do cancro do colo do útero. Contudo, apenas uma pequena fracção das mulheres infectadas vem a desenvolver lesões significativas e, dessas, uma pequena parte progredirá para esse nefasto desfecho.


Para além dos factores inerentes aos próprios vírus, haverá em jogo outros da própria hospedeira. De entre esses, tem havido particular interesse em avaliar o papel, sobretudo, da microbiota. Certo de que essa análise será sempre inquinada pelos dogmas prévios e pela nossa inata necessidade de encontrar verdades absolutas (e, preferencialmente, dicotómicas), vamos concluindo (convenientemente para as nossas inquietas mentes!) que a disbiose se associa a maior risco de infecção e persistência vírus do papiloma humano, a mais displasia e cancro do colo do útero. Contudo, continuamos sem grande certeza relativamente a onde estabelecer a fronteira entre a eubiose e a disbiose (talvez a definição tenha que ser feita ao nível do indivíduo e seja válida num curto fragmento temporal).

A diversidade da microbiota, na vagina, parece ser uma desvantagem (quase soando a paradoxo da natureza e a algo politicamente incorrecto!). A evolução do normal até ao cancro parece ser marcado pela diminuição dos lactobacilos (ficando, uma vez mais, o L. iners num limbo) e surgimento da dominância por outras espécies, nomeadamente do género Sneathia e Fusobacterium. Portanto, mais um dogma a questionar: nem toda a disbiose vaginal é vaginose bacteriana (rasguem-se as vestes – podemos ter que repensar e questionar os nossos velhos livros de texto!).



Já que questionamos dogmas: serão estas alterações da microbiota causas? Ou consequência da infecção e da displasia? Complicando: o sucesso do tratamento da displasia não parece associar-se ou estar dependente da “normalização” subsequente da microbiota...

O próximo passo, assim que consigamos entender melhor esta dinâmica, será a manipulação do ambiente vaginal para prevenir a infecção, promover a sua eliminação ou, inclusivamente, a reversão das alterações já existentes. Apesar de algumas promessas alicerçadas em frágeis fundações, não existem até ao momento formulações eficazes para tal. Passará o futuro pelos transplantes de microbioma vaginal?

Arriscaria dizer que o que hoje sabemos é um mero esquiço da verdade, que se revelará nas próximas décadas. Não esquecendo, contudo, que já Pasteur nos avisou de quem é a última palavra...




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